Cambirela

Ensaio 6 minutos
Felipe Heredia, depicted in the image

Dia 16 de Maio de 2026, Florianópolis, 02:15 hrs da manhã, 17 ºC levanto da minha cama em busca de uma aventura.

Na minha cabeça o objetivo era simples, subir o Morro do Cambirela, em Palhoça/SC. Eu não sabia a altura, os desafios. Sapato, casaco e lanterna emprestados, eu não fazia ideia do que estava por vir. Nunca tinha feito uma trilha.

A busca pelo desconhecido e pelo caos me tiraram da cama quente, deixando o conforto para buscar algo completamente diferente e novo.

A subida

Começamos a subida por volta de 03h 40m, ainda escuro e a cidade dormia. Eu não pensava em nada além de subir, não pensava nas dificuldades, em como seria o caminho ou o que estaria nele, eu só seguia quem estava na minha frente.

De início as coisas pareciam muito simples, uma subida pouco complicada mas era possível, o ambiente estava bem úmido, mas até então tudo estava tranquilo.

O tempo foi passando, o corpo foi esquentando e as coisas começando a ficar mais complicadas, a subida ficou mais íngreme e a respiração ofegante. Em vários pontos da trilha existem barras de ferro fincadas em pedras, como uma escada, esse era o grau de subida.

Quando eu olhava para trás, via lanternas de outras pessoas do grupo que estavam próximas de mim no caminho, mas eu estava bem mais alto, eu simplesmente não percebia o quanto eu estava subindo.

Por volta de 5 horas olho para o meu relógio e fico assustado, mais de 1 hora de subida havia passado, na minha cabeça pareciam 10 minutos, eu não vi o tempo passar. A mente estava vazia, o tempo sumiu.

Eu estava no escuro, sem passado, sem futuro, existia apenas o próximo passo, a próxima subida. O chegar ao topo e a saída da minha cama não estavam mais ali.

Chegou o momento da subida mais íngreme, havia uma corda de talvez uns 10 metros, amarrada em uma árvore, era a única maneira de continuar subindo naquele caminho. Eu nunca tinha subido em uma corda, mas encarei o desafio.

Em outro ponto, a única maneira de continuar a trilha era abraçando uma árvore e passando para o outro lado, não tinha apoio no chão, só a árvore.

Estávamos chegando no topo e tudo estava tranquilo apesar dos pesares. Ainda era noite, olhando para trás era possível ver a cidade toda iluminada. Por volta de 05:50 terminamos a subida e encontramos um bom local para ficar, com boas pedras para sentar ou deitar.

Duas horas de subida, eu não percebi o tempo passar, o corpo estava quente, eu estava desconfortável, suado. Mas tinha valido a pena, mesmo no escuro, tudo era lindo.

Grande Florianópolis, vista de cima do Morro do Cambirela, durante a noite

Nascer do sol

As nuvens estavam longes ao leste, não foi possível ver exatamente o sol nascer, apesar de haver uma única fresta entre as nuvens onde era possível ver o céu laranja. Havia nuvens abaixo e acima de nós.

O dia começava a amanhecer, eu ainda me mantinha muito tranquilo, não havia entendido ainda tudo o que havia subido. Era possível olhar para a outra face da montanha, admirar cachoeiras e uma cidade.

A luz solar refletindo em um dos braços do Rio Cubatão, vistas incríveis foram possíveis deslumbrar no topo do Cambirela.

Nascer do sol, visto de cima do Morro do Cambirela. Nuvens acima e abaixo do nascer

O tempo foi passando, as nuvens que estavam ao leste foram chegando mais perto de nós. Após 1 hora lá em cima, a cidade e o mar foram encobertos pelas nuvens.

Como eu disse lá em cima: _“O HD não está conseguindo renderizar a cidade”. Esse cenário pode ser visto na última foto, a posição era semelhante à posição desta foto acima.

A descida

Por volta de 07h 50m iniciamos a descida. O sol havia iluminado o dia, então agora era possível entender tudo o que eu havia subido. Havia uma curta faixa de terra, com menos de 10 metros, que terminava menos de 100 metros à frente, eu não conseguia entender como havia chegado lá em cima.

Durante a subida, a lanterna iluminava 5 metros em volta de mim, era difícil ter dimensão do que eu havia passado ou precisava passar. Eu só enxergava o próximo passo e ia. A luz do dia me mostrou tudo às claras.

A escuridão me obrigou a enxergar apenas o próximo passo, o sol me revelou todo o resto, escancarou toda uma montanha. Visualizar todo o caminho na subida me paralisaria. Mas durante a descida não havia volta, eu precisava descer aquele terreno íngreme.

Grande Florianópolis, vista de cima do Morro do Cambirela, durante o dia

Chegando novamente na corda, olhei para a árvore que a sustentava, as raízes estavam à mostra, o tronco não me parecia realmente fixo. Como eu passaria por ali? A corda em tons de verde, com vários nós, não me passava confiança. Eu não queria me apoiar apenas nela para descer.

O medo tinha tomado conta da minha mente, eu fiquei paralisado, não havia mais como subir, a única saída era descer. Olhei para baixo, uma queda muito alta, pensei em me jogar, minhas mãos não obedeceram. Quando me dei conta já estava descendo pela corda, como se aquela fosse a centésima vez em um cenário daqueles.

Depois de abraçar uma árvore, descer por uma corda, a mente já estava exausta, era possível ouvir o ruído dos caminhões distantes na rodovia, rodovia essa que nunca chegava.

O mundo de aventuras e desafios estava ficando para trás, eu estava deixando a natureza e sua beleza para trás e voltando para a selva de pedra.

Aquele que havia se levantado da cama as 2 horas da manhã estava exausto, 8 horas depois, às 10 horas da manhã, deixando uma experiência incrível e o suor na montanha.

Eu, em cima do Morro do Cambirela, nuvens tampando a visão da cidade